sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

...A Verdade Vos Libertará

The truth is what we need,
It's the end of mistery
You know the truth will set you free
The truth is out there, the truth is out there*

DC Talk - The Truth


- A verdade vos libertará. – ela diz
Meus olhos se erguem para ela, mas ela não está olhando para mim.
- O quê? – pergunto
Ela não me responde, apenas toma outro gole de chá.
Baixo os olhos para meu caderno ainda em branco e escrevo.
A verdade vos libertará.
É o começo de algo que eu ainda não entendo. É uma frase cujo sentido eu desconheço.
Mas elas me dizem algo.

XxXx

- A verdade vos libertará. – murmuro a mim mesmo enquanto olho no espelho.
A frase ainda está escrita em meu caderno e o resto ainda está em branco.
A única coisa que eu tenho feito é ler e reler a mesma coisa inúmeras vezes.
A verdade vos libertará.
Ainda não consigo tirá-las da cabeça.
O chá já está frio.

XxXx

- A verdade vos libertará. – me ouço dizer em voz alta durante o trânsito.
Deixei essas palavras guardadas em meu caderno praticamente em branco antes de dormir, mas elas voltaram logo pela manhã.
“A verdade vos libertará.”, elas diziam.
Não senti gosto de nada durante o café.
“Não estou livre?”
E elas continuam me seguindo.
“Como a verdade pode me libertar?”

XxXx

“A verdade vós libertará”, leio em uma placa qualquer e só depois de passar por ela eu assimilo o que ela dizia.
Desligo o motor do carro, mas ainda não saio.
“Libertar de quê?”
Murmuro algo sem sentido, tenho que trabalhar.
“O que é a verdade?”
Bato a porta com força demais, distraído.

XxXx

A verdade vos libertará.
As palavras estão escritas em um papel qualquer em cima da minha escrivaninha.
Eu ia escrever alguma outra coisa, mas sempre que aproximo a caneta do papel essa é a única coisa que sai.
- A verdade vos libertará. – repito para mim mesmo.
- O quê? – alguém me pergunta.
Não respondo e apenas bebo outro gole de café.
Não consigo pensar em mais nada para dizer.

XxXx

- A verdade vos libertará. – a secretária lê em uma das minhas anotações aleatórias.
Ainda estou olhando pela janela.
Libertará...
- O que isso quer dizer? – ouço-a perguntar atrás de mim.
Dou de ombros.
- Se você sempre achasse que estava livre e depois descobrir que não estava, o que você faria? – pergunto.
- Não sei. – ela me responde cautelosamente – Talvez eu tentasse me libertar...
- E como usaria a verdade para isso?
Preciso de ajuda para entender isso.
- Não faço a mínima ideia. – ela responde depois de uma longa pausa.
Logo depois ela sai.
Penso mais uma vez sobre isso tudo.
Nada. Suspiro.
A verdade vos libertará.

XxXx

Caminho distraído até o elevador.
Verdade. A verdade sobre o quê?
Estou confuso.
Entro no elevador e olho para o imenso corredor diante de mim.
“Não estou livre?”
As portas se fecham e vejo a mim mesmo no reflexo.
“Não estou livre?”
- A verdade vos libertará. – digo a mim mesmo em voz alta.
Olho para o lado. Um homem que eu nunca vi sorri de volta para mim, como se soubesse um grande segredo e entendesse o que essas palavras querem dizer.
- Como? – pergunto.
Seu sorriso se alarga ainda mais.

XxXx

Chego em casa mais tarde do que o habitual. Estou atrasado para o jantar.
Ainda assim ela está me esperando na cozinha, a mesa ainda posta.
Ela está lendo.
Quando me sento ela ergue o olhar para mim. Não parece mais estar distraída.
- Conhecereis a Verdade... – ela diz sorrindo.
- E a Verdade vos libertará. – respondo.



*A verdade é o que nós precisamos,
Este é o fim do mistério
Você sabe a Verdade te libertará
A Verdade está lá fora, a verdade está lá fora

sexta-feira, 28 de março de 2014

Conscientia [POEMA]



Consciência
s.f. Sentimento que se passa em nós mesmos;

julgamento em que a alma aprova ou condena as ações feitas;
Do latim: Conscientia.





Fora de alcance, é como ela está agora.
Aquela alegria e vontade de viver já foi embora.
Ela previra isso, sabia como iria acabar,
Aquele filme já rodara antes, não tinha como mudar.

Fria, pálida, frágil demais para tocar.
Longe ainda que perto, distante para alcançar.

Veja onde ela está agora. Veja como ela está.
Sabe se acaso é o culpado por essas lágrimas?
Lágrimas que não podem mais serem vistas, a fonte parou de jorrar.
Pode me dizer quem é o culpado por essas lástimas?

No fundo, lá dentro, você sabe quem errou.
Não invente desculpas, não aponte dedos, você a matou.

Veja onde ela está agora. Veja como ela está.
Fria, pálida, frágil demais para tocar.
Deitada em seu caixão, buscando repousar,
Seu rosto demonstra que ela está em paz, mas deixe-me dizer, ela não está.

A sua mão a asfixiou, impedindo-a de respirar,
As suas palavras a agrediram, impedindo-a de lutar.

Perante a lei você é inocente, não vão lhe julgar,
Mas no fundo você sabe por que ela quis se matar.

Quem disse que palavras não ferem? Que não podem machucar?
Pois bem, agora eu estou aqui. Sua consciência veio te acusar.


Jenifer Menezes
15.10.11

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Recomeço em Escada

Recomeço


Andei
         corri
                 e alcancei

                            Mas ainda não acabou

Perdi
      procurei
                 e desisti

                           Mas ainda é só o começo

Acabou
        cheguei
                 e terminei

                           Mas ainda tem muito chão pela frente

                                                      Mais uma chance
                                                                         uma batalha
                                                                                   um recomeço

Tudo isso ainda é o começo
ainda não acabou

Porque tudo sempre começa de novo

                       Recomeça assim que acaba

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Despedida Em Escada

Despedida
s.f. Ação de despedir.

Saudação no momento em que pessoas se separam.



Enquanto o mundo gira e a vida vai
                   passa 
                          corre 
                                 acaba


Enquanto o sol queima antes de se pôr
                                         nasce 
                                                brilha 
                                                      apaga


Tudo passa depressa apenas para voltar depois
                                                 maior 
                                                      mais forte 
                                                                mais doloroso

E as lágrimas ameaçam sair e correr                                                                                                 
                         mais uma vez 
                                     novamente 
                                                de novo;


Não era pra ser assim
                              esse 
                     não era 
                o fim

                                       
              Não era pra ser 
                          Não queria que fosse
                  
                           
                          Mas não teve escolha
                              Não teve voz; 

                                                                                              Lágrimas amargas
                                                                                                       Sufocam e queimam
                                                                                                                               Matam;


              Mas agora não há mais lágrimas
                      nem dor
                              nem nada;

                                                  Apenas o vazio deixado pra trás



          Enquanto o mundo gira e a vida vai
                                         passa 
                                                                         corre 
                                                                                                         acaba.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Submersa [POEMA]


Submersa
adj. Submergido, coberto pelas águas.
Mergulhado, oculto.


Das trevas um sussurro, um brilho profundo
Que vem do luar;
Dos olhos uma gota, cai do rosto da garota
Começa a chorar;
Das preces um suspiro, por detrás do sorriso
Que acaba de desabar.

Deixou de sorrir, deixou de fingir
Por detrás da mascara, da mentira
Resta apenas uma menina,
Que não tem para onde ir.

Do passado um segredo, capaz de aumentar o seu medo
Não consegue evitar.
Das lembranças um fantasma, não importa o tempo que passa
Não consegue apagar.

Do silêncio um grito que nunca é ouvido.
Não consegue explicar.
Das águas um movimento, que triste momento
Seu reflexo nas águas a balançar

Dos passos um vacilo, pressente o perigo,
Continua a andar
Do tempo uma lembrança, indesejável herança.
Não quer mais lembrar.

Tudo o que afunda vem à tona,
O que flutua torna a afundar.
Tudo o que acabou teve um começo,
Tudo o que começa virá a terminar.

A lua crescente, o corpo minguante,
Um ciclo sem fim, um ciclo viciante.

Da escuridão surge um brilho, talvez o único caminho
Que ela possa trilhar.
Do peito uma batida, o coração palpita.
Não vai mais aguentar

E no silêncio noturno, sem fazer qualquer barulho.
Um corpo bate de encontro com o mar.


Jenifer C. Menezes
28.07.2011